Levar o seu pet para tomar banho pode parecer uma atividade trivial e sem nenhum perigo aparente, certo? E aí que você se engana. O caso do gatinho morto durante um banho em uma pet shop de Brasília ganhou a atenção da mídia e levantou o debate sobre a responsabilidade na hora do banho e os perigos de um banho mal dado com profissionais despreparados.

A comportamentalista animal Natasha Duarte, proprietária de uma day care em Porto Alegre, alerta: “Em muitas pet shops o banho é praticamente uma linha de produção. Eles não se importam com o bem estar, mas sim em dar banho no maior número de animais possível para faturarem mais. Qualquer pessoa que trabalhe com animais deve ter uma noção básica de linguagem, pois eles comunicam como estão se sentindo. Os banhos não podem ser dados com pressa. E os pets com medo precisam ser adaptados em etapas e com absoluta tranquilidade.”

Natasha ainda ressalta: “quando é o primeiro banho de um animal aqui no Luther, eu reservo duas horas exclusivamente para ele. Estou preocupada que goste da lavagem e da secagem. Isso demanda conhecimento para eu entender os sinais que ele está me dando e o quanto eu posso avançar”.

Fique ligado no banho do seu pet

Diferente de raças que gostam de água e de tomar banho, a Ella não nega que é uma Shar Pei e, por isso, faz parte da turma do “Cascão”. O dia em que a Ella tomou banho na clínica veterinária Salute Animale havia sido repleto de atividades. Entre elas: check-up com ultrassom e exame de sangue e gravações para o Pet Booking. Ou seja: ela estava cansada. Por isso, foi um pouco mais difícil detectar o seu nível de stress ao ser colocada na banheira. Ainda assim, percebi que estava agitada acima da média. Na hora da secagem, não parava quieta. A Dra. Natália parou o procedimento, a levou para dar uma volta no jardim e só depois retornou a secagem. Você deve levar seu pet a um lugar onde o banhista saberá entender seu melhor amigo no caso de ele sinalizar “preciso de ajuda” e que a veterinária conheça seu histórico médico.

Convidamos a médica veterinária Natália Ardizon para nos orientar sobre como cuidar dos nossos filhos peludos na hora do banho. Com a palavra, a “vet” da Ella.

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1.) O que o tutor deve levar em conta ao procurar uma pet shop para dar banho no seu pet?

O tutor deve levar em conta a estrutura física do estabelecimento: maquinário adequado, profissionais capacitados, água em temperatura adequada, sopradores e secadores, tanques sem quinas e com piso não escorregadio, toalhas higienizadas e esterilizadas, iluminação adequada, lâminas de tosa e tesouras novas sem ferrugem e afiadas constantemente.

Sem dúvida, a presença de um veterinário no local é imprescindível: tanto para acompanhar e corrigir qualquer problema técnico, quanto observar o animal e minimizar qualquer acidente. Ter uma estrutura clínica, um centro cirúrgico com oxigênio, ventilação mecânica e medicações adequadas também aumentam as chances de sucesso em caso de acidente ou problema grave, onde o veterinário pode contar com a estrutura para reverter possíveis problemas.

2.) Quais são os sintomas de que o pet está passando mal e corre risco de vida?

Os sinais de que o pet não está bem durante o banho costumam ser os mesmos sinais do estresse: hiperemia de mucosas , respiração muito ofegante e desconforto. O pet começa a ficar mais inquieto que o normal. As causas desse desconforto podem ser: calor dentro da sala, água muito quente ou gelada, secador muito quente ou muito próximo ao animal. Nestes casos, interrompe-se o banho. O ideal é esperar um tempo e, quando o pet estabilizar, dar continuidade ou cancelar.

3.) Quais raças são mais suscetíveis? Em quais casos não são recomendáveis dar banho?

Raças com focinho curto (braquicefálicos) e com pelos longos e densos, que demandam muito tempo para a secagem, e de temperamento agitado são os mais suscetíveis. Os felinos são estressados para a maioria dos procedimentos, principalmente banho e tosa.

Animais com problemas de saúde, como os cardiopatas e os convulsivos, devem evitar o banho e espaçar ao máximo um do outro.

4.) Como uma pet shop pode minimizar o stress durante o banho?

Não misturar vários animais durante o banho. O melhor é dar um banho de cada vez. Não marcar animais que não são amigos ao mesmo tempo. Dedicar um dia ou um turno exclusivamente para banho em gatos. Tornar o banho uma experiência relaxante e sem pressa, em um ambiente calmo.

5.) Os animais que ficam muito assustados deveriam tomar banho em casa?

Para alguns animais tomar banho em casa é uma das formas de amenizar o stress. Porém, precisa-se ter o cuidado de usar produtos específicos e de deixar o pet bem seco. Um dos problemas do banho em casa é que os pets não deixam os tutores secarem adequadamente e a umidade gera doenças.

Para esses animais agitados, o banho em domicílio por profissional qualificado pode ser uma boa saída.

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6.) Com a presença do dono, eles ficam tranquilos?

Alguns animais ficam tranquilos com a presença do dono, mas a maioria parece ficar mais agitado. É sempre bom deixar o tutor decidir se vai acompanhar ou não.

Algumas pet shops não gostam que o tutor acompanhe o banho. O motivo? Pode ser por causa da agitação do pet ou por problemas no banho e tosa, que serão observados. Fique atento.

7.) Quais problemas os pets podem ter na hora do banho?

Os problemas em pet shops podem ocorrer por diversas causas: negligência, desinformação, despreparo e distração. Dentre os problemas mais comuns estão:

Úlcera de córnea – provocada pelo calor do secador, produtos químicos, trauma com escovas, pentes e rasqueadeiras.

Intermação (“Heat Stroke”) – distúrbio causado pelo calor. Pode acometer qualquer animal, mas os cães braquicefálicos, os filhotes, os idosos e os mais agitados são os mais predispostos. A morte súbita por hipertermia pode ocorrer se o pet ficar exposto a altas temperaturas sem se refrescar, como em parques e nos passeios, ou quando ficam trancados dentro de carros. Não é um problema específico do banho e tosa.

Quedas – da mesa, da banheira ou do colo do funcionário.

Feridas – são causadas pela lâmina de tosa e também por tesouras, pentes e rasqueadeiras.

Intoxicações – ocasionadas pelo uso inadequado de substâncias no tratamento de sarnas e infestações por ectoparasitas.

Choques elétricos – quando o animal molhado entre em contato com fios desencapados.

Queimaduras – causadas pelo calor do secador, alta temperatura da água e choques elétricos.

Maus-tratos – É comum culpar o animal – “ele me mordeu”, “ele não para quieto”, mas o erro é humano.

Ectoparasitas – A falta de higiene e/ou o uso comum de tesouras, gaiolas, pentes, escovas, pinças, podem transmitir ácaros, dermatófitos, bactérias e leveduras.

Viroses – as gaiolas, comedouros e bebedouros são agentes de transmissão de viroses.

O sedativo em banho e tosa deve ser utilizado em casos de extrema necessidade. Além disso, o proprietário do animal deve ter ciência dos riscos inerentes e assinar um termo de autorização.

Qualquer atividade a ser realizada, mesmo um banho aparentemente “inocente”, deve ser tratada com profissionalismo e responsabilidade, visando sempre à saúde e integridade do animal, sem esquecer que estão envolvidos os sentimentos de pessoas com o animal.

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8.) Qual a temperatura correta da água e do secador?

A temperatura ideal da água para o banho é morna. Água muito quente ou muito fria causam desconforto ao animal. Em dias muito quentes, a temperatura da água pode ser a natural (temperatura de torneira).

O secador deve ser usado por último, quando o pet já foi secado com toalha bem absorvente e feito uso de soprador para reduzir a umidade dos pelos. Com isso, reduz-se o tempo de exposição ao secador, que geralmente é bem quente. Isso depende muito do tipo de pelagem e do animal. Gatos, por exemplo, não toleram o soprador, então para esses pets faz-se a associação de toalha e secador, para não aumentar o stress com o soprador.

9.) Por que os pets devem tomar banho? Apenas para satisfazer o desejo de limpeza dos tutores?

O banho dado na frequência correta alivia a oleosidade da pele dos animais, que muitas vezes é  causa de prurido e lesões devido o ato de coçar. O banho não deve ser dado com uma frequência muito alta, pois o efeito contrário ocorre, ou seja, a proteção da pele fica prejudicada e muitas vezes ressecada, o que causa incômodo também.

10.) Qual é a periodicidade recomendada?

Recomendo a cada 15 dias, mas se o pet estiver sendo avaliado por um veterinário, pode ser semanalmente. Principalmente, quando está em tratamento com shampoos terapêuticos.

11.) Se o pet comer, ele pode tomar banho? Quanto tempo deve se respeitar entre a refeição e o banho?

Não é recomendado que o pet se alimente muito antes do banho, pois ele pode ficar enjoado com o movimento e vomitar. O ideal é aguardar o banho e dar a comida após. Ou dar somente uma pequena quantidade e aguardar 30 minutos.

12.) No dia do banho o pet deve descansar?

Se o pet estiver acostumado com o banho e não ficar agitado, pode seguir a rotina do dia normalmente. Mas para os animais mais agitados, que se estressam muito durante o banho, é necessário deixá-los descansar neste dia.

Por Cris Berger & Ella do Guia Pet Friendly

SERVIÇO:

Salute Animale Clínica Veterinária: Rua Flórida, 528, Brooklin, São Paulo – SP